OS TEMPLÁRIOS
Nem mesmo os mais cépticos
conseguem permanecer indiferentes à aura misteriosa que contaminou tudo quanto respeita
aos Templários, essa ordem religiosa e militar fundada no século XII para guardar os
lugares santos. O Convento de Cristo e a cidade de Tomar são um dos mais notáveis
repositórios do seu projecto ecuménico, mas inúmeros outros locais preservam em
Portugal reminiscências dele.

A designação de Templários
advir-lhes-ia da circunstancia de o rei Balduino II lhes ter cedido umas dependências,
situadas junto à Cúpula do Rochedo, no local em que Salomão sediara o seu templo.
Data, portanto, de 1128 a
constituição efectiva da Ordem do Templo, por sinal o ano exacto em que se assinala o
nascimento de Portugal como Estado independente de facto.
Apesar
de documentada antes desse ano a presença de procuradores da Ordem no território
portucalense, só a partir de então o Templo começaria a arrecadar bens a um ritmo que
não deixa margem para dúvidas quanto à receptividade que aqui encontrara o seu
ideário, ao ponto de o próprio Afonso Henriques se haver feito confrade da Milícia.
A importância crescente que os
Templários haviam de assumir é, todavia, indissociável do papel preponderante que esse
instituto, criado expressamente para custodiar e defender os lugares santos da Terra, iria
desempenhar na geopolítica peninsular, terreno reconhecidamente privilegiado para o
contacto com formas singulares de religiosidade e, nomeadamente, com a herança do mundo
antigo, preservada pelo Islão.
O mapa do Portugal templário
atesta, mesmo que os documentos a não explicitem, a preocupação dos dignitários
provinciais de assumirem o controle de determinadas regiões consideradas chave, e não
exclusivamente do ponto de vista militar e económico, de molde que, à medida que as vão
integrando no património da Ordem, passem a administrar, com a visão que se lhes não
pode negar, um território cuja coesão advém de uma qualidade intrínseca e essencial.
Efectivamente, se houve ordem religiosa e militar que teve o dom de proceder à
sacralização do planeta de acordo com os preceitos geomânticos tradicionais legados ao
Ocidente pela antiguidade greco-latina, originando o que pode designar-se por geografia
sagrada, a Ordem do Templo foi um dos seus mais elevados expoentes nos tempos medievais.
Vislumbres da gnose
templária
Uma das acusações expressas na ordem de prisão
de todos os Templários, emitida pelo rei de França em 13 de Outubro de 1307, referia-se
a adoração de um ídolo que tem a forma de uma cabeça de homem com grande barba.
Mas, além da acusação de
idolatria, outras lhes seriam igualmente imputadas, de acordo com o libelo acusatório
inquisitorial de 12 de Agosto de 1308. O crime mais censurável, segundo os inquisidores,
decorria da circunstancia de os Templários serem apóstatas, pois, alegadamente,
renegavam Cristo cuspindo na cruz.
Geoffroy de Gonneville, preceptor de Aquitânia e Poitou, indeciso quanto à origem
do rito, avançaria
explicações, na sua opinião aceites no seio da Ordem: de acordo com alguns confrades,
fora instituído pelo mestre Gérard de Ridefort (1184 a 1 10 1189), segundo
outros por Thomas Bérard (1256 a 1272) ou por um enigmático Roncelin de Fos, enquanto
outros entendiam que memorava S. Pedro, o qual três vezes negara Cristo. Por seu turno,
Geoffroy de Charnay, que confessou ter praticado a renuncia de Cristo a pedido de Amaury
de la Roche, comendador da Normandia, acrescentava que este lhe teria afirmado [...] não
acreditar naquele, cuja imagem estava pintada, porque era um falso profeta, não era Deus.
Acusações
igualmente inventariadas no libelo davam os freires da Pobre Milícia de Nosso Senhor
Jesus Cristo como praticantes de beijos obscenos no acto de recepção na Ordem e
portadores de cintos mágicos que cingiam na mesma ocasião, os quais teriam estado
previamente em contacto com o supracitado ídolo.
Imediatamente
após o cumprimento da determinação de Filipe, o Belo, o inquisidor Guillaume de Paris
ordenaria aos seus agentes que conduzissem os interrogatórios de molde a esclarecer o
caso. O zelo evidenciado pelos inquisidores produziu os resultados de antemão esperados.
Com efeito, diversos cavaleiros submetidos a tortura acabariam por confessar a pratica dos
aludidos ritos perversos, tais como a existência de um ídolo que alegadamente haviam
visto ou adorado em diversas ocasiões e lugares, bem como das ataduras ou cintos mágicos
colocados ao pescoço do ídolo, os quais recebiam com o compromisso de sempre, noite e
dia, usarem.
Nunca,
porém, a natureza do ídolo em questão ou o significado dos procedimentos enumerados
haviam de ser satisfatoriamente dilucidados, sem dúvida graças ao desacordo entre as
confissões obtidas e, nomeadamente, à circunstância agravante de jornais ter sido
encontrada qualquer das imagens descritas.
Guillaume Pidoye, administrador
guardião dos bens do Templo e a esse titulo detentor das relíquias e caixas apreendidas
aos Templários de Paris, convocado pelos comissários para apresentar todas as imagens de
metal ou madeira que tivessem resultado do confisco, declarou não ter encontrado senão
uma grande cabeça feminina de prata dourada. No interior do relicário seriam achados
dois ossos de um crânio muito pequeno envoltos num pano de linho branco e acompanhados
por uma filactéria de tecido vermelho cosido onde era legível: Gaput LVIIm. Uma vez
mostrada a Guillaume Arblay, este negaria tratar-se da cabeça humana a que aludira no seu
depoimento, acrescentando não ter a certeza de a haver visto no Templo de Paris.
Em
pleno século XVIII, quando a questão foi retomada pela pena de eruditos, o alemão
Friedrich Nicolai encetou, sem se dar conta, uma polemica discussão, ainda hoje não
encerrada, ao atribuir algo
apressadamente o nome de Baphomet ao ídolo, até então jamais baptizado. Fê-lo numa
obra extremamente hostil aos Templários, inspirado na deposição do provençal Gaucerand
de Montpezat, o único confrade que durante todo o processo de que a Ordem foi alvo se
referira a uma imagem com a forma de um bafomete. Este testemunho induziria o investigador
germânico a suspeitar da vigência de uma doutrina secreta no seio da Ordem do Templo.
Trazida do Oriente, seria, na sua opinião, indissociável do Islão, conhecidos os laços
de companheirismo mantidos por alguns mestres do Templo com chefes muçulmanos e sabido
que as mesquitas eram designadas na Provença por bafomairias.
Entretanto,
que indícios existem, se é que em Portugal os há, que permitam afirmar ou negar que os
Templários portugueses partilhavam do mesmo ideário dos irmãos franceses, uma vez que
aqueles foram
ilibados de todas as acusações imputadas a estes ?
Vão
deixa de ser curiosa a persistência na região de Tomar de uma tradição que,
aparentemente, poderá relacionar-se com uma das acusações proferidas contra os
Cavaleiros do Templo. Referências às Aleluias de Cem Soldos, outrora também realizadas
em Carregueiros, pelo menos. As Aleluias são cruzes e ramos de cana ornamentada com
flores naturais. Na manhã de domingo de Páscoa, jovens ostentando-as (as cruzes os
rapazes, os ramos as raparigas) percorrem as ruas da povoação proclamando a
ressurreição de Cristo. Depois, na capela, reúnem-se para o ofício religioso.
Concluído este, todos, à excepção do melhor ramo e da melhor cruz, previamente
avisados pelo júri, saem do templo, iniciando
a destruição, na escadaria que lhe da acesso, de todas as cruzes e
ramos que até então haviam acarinhado e que nessa ocasião sacrificam alegadamente em
honra da ressurreição de Cristo (cerimónia tradicionalmente denominada matança dos
judeus).
O
mistério envolvendo o Baphomet acabaria, inexoravelmente, por contaminar a semântica do
objecto nomeado. O vivo debate a que ainda hoje se assiste peca pela monumental
efabulação, a qual igualmente tem contribuído para o fortalecimento da quimera forjada
há cerca de duas centúrias. Seja como for, investigações recentes sobre fontes
islâmicas sugerem que Baphomet pode, com efeito, derivar do árabe Abufihamat (cuja
pronuncia em língua mourisca peninsular soa Buphimat!, com os sentidos Pai, Fonte, sede
principal da Compreensão. Uma expressão derivada, Ras-el-fah-mat, significando Cabeça
de Conhecimento, refere-se, por sua vez, à capacidade mental do homem depois de a sua
consciência ter sofrido um aprimoramento. A um tal processo se reporta precisamente a
expressão «Eu construo uma cabeça», usada por algumas escolas sufis.
De
resto, o tema da cabeça prodigiosa, tão frequente no imaginário medieval, dificilmente
poderá passar despercebido. Quem não terá ouvido falar de cabeças santas, cuja fama
lendária
ocorre um pouco por todo o
espaço ibérico, mesmo em contextos não-templários, ou não conheça relíquias
ciosamente guardadas dessa parte, a mais nobre do corpo humano?
Por
seu turno, o monumento mais representativo da mística judaica peninsular, o muito
justamente afamado Livro do Esplendor (Sepher ha-Zohar), afirma ser a cabeça o Ponto
Supremo, porque é a partir dele que principiam os mistérios inteligíveis, posição
similar à exposta no Timeu, diálogo onde Platão considera a cabeça a parte mais divina
do corpo humano por aí se situar a sede do Intelecto.
Mas
até de um papa, Silvestre II, se conta, o que o Liber Pontificalis (Biblioteca Vaticana)
corrobora, que terá fabricado, entre outros objectos mágicos, uma cabeça de bronze, no
que seria imitado por Alberto Magno, o qual terá gasto 30 anos a construir um objecto
análogo que S. Tomás de Aquino quebrou porque falava demais!
Curiosamente, os
termos árabes para conhecimento e compreensão, conotados com aquele usado para designar
a cabeça, derivam de uma raiz linguística que é comum aos vocábulos também árabes
"preto" e "carvão".
Daqui a associar-se a cor preta, distintiva do princípio divino, à cabeça, sede desse
mesmo princípio, vai um curtíssimo passo.
Na
realidade, a Cabeça de Preto, peça heráldica relativamente rara mas presente no brasão
de Hugues de Payen, fundador dos Templários, no dos descobridores Fernão Gomes da Mina e
Diogo de Azambuja, entre outros, tal como as Cabeças de Mouro e de Turco, esta timbre do
brasão de
Vasco da Gama, são
na linguagem dos símbolos alusão ao centro espiritual primordial e, concomitantemente,
figura evocadora da iniciação dispensada por esse centro.
Num tal contexto, ganha pleno
sentido a demanda e posteriores contactos com os Nestorianos, ou Cristãos de São Tomé,
prosélitos da Igreja de Melquisedeque, o Preste João dos anais portugueses,
rei-sacerdote, presbítero da Paraclética Igreja Oculta do Discípulo Amado e
iniciador supremo. Entre esses
cristãos do Oriente, o acesso ao sacerdócio pressupunha uma transmutação da
consciência que culminava num complexo cerimonial litúrgico. A benção com o ceptro
realizada pelo Menino-Imperador durante o Auto do Império equivalia então ao toque no
mesmo local (o Olho de Xiva da tradição hindu) com um ferro em brasa que queimava a
carne até ao osso, constituindo um autentico estigma. Uma tal operação era denominada
Tomaios, aquilo que a Igreja Grega pala pena de S. João Crisóstomo (Epístola aos
Coríntios, I, 4, 12) chama Baphe-Metopon, literalmente Baptismo da Face, a cruz que deve
ser impressa na testa, sinal da iluminação verdadeira, da visão de Deus face a face ou
sub specie aeternitatis, enfim da superação da dualidade, manifestada na iconografia
tanto pelo estrabismo como pela convergência ocular dos Bom Jesus siríacos aos góticos,
das esculturas do Aleijadinho, da representação dos Místicos e do Homem dependurado das
raízes da àrvore Seca da janela do baixo-coro manuelino do Convento de Cristo.
Esse sacramento, espécie de
crisma, é distintivo dos eleitos e garantia da sua salvação. É, de resto, o que se
depreende de uma passagem do Apocalipse do vidente de Patmos:
E o quinto Anjo tocou a
trombeta e vi que uma estrela caiu do Céu na Terra e lhe foi dada a chave do poço do
abismo. E abriu ela o poço do abismo; e subiu fumo do poço, como fumo de uma grande
fornalha. E se escureceu o Sol e o ar com o fumo do poço. E do fumo do poço
saíram gafanhotos para a terra e
lhes foi dado um poder como têm poder os escorpiões da terra e lhes foi mandado que não
fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, senão, somente, aos homens que não
tem o sinal de Deus nas suas testas.
Sinarquia, Auto do
Império e iniciação
demanda da equidade universal, com a doutrina derivada do pensamento do cisterciense
Joaquim de Fiore e popularizada pelos espirituais franciscanos. De outro modo, como
justificar que os mesmos monarcas que protegeram os Templários se tivessem empenhado na
difusão do joaquimismo, cujos princípios religiosos, éticos e políticos se baseavam na
ideia de que a História não envelhece, sendo constituída por três momentos distintos e
consecutivos, correlatos das três pessoas da Trindade, fazendo-se pura como os meninos
para ganhar o Reino dos Céus. Foi o que, como é público, imortalizou Santa Isabel e D.
Dinis. No século XIV, o enlace de ambos deu ao projecto joaquimita, que já tinha livre
curso em Portugal, novo alento. Preludiando a concretização da Era do Espírito Santo e
consequente quebra da influência da Igreja Romana ou do Filho, que, por seu turno
sucedera à do Pai, sediada em Jerusalém e vivida sob o influxo da lei mosaica, toma
espantoso incremento e festiva grandiosidade a representação do Auto do Império do
Paracleto. Devido ao proselitismo de D. Isabel, em quem, nas palavras do cronista Rui de
Pina, [...] a graça do Espírito
Santo de
que era acesa de todo causava [...] um louvado sossego e grande devoção [...], e dos
Franciscanos, que constantemente a rodeavam, a devoção da terceira pessoa na forma de
Império alastra a praticamente todo o espaço nacional, comemorando o período da Páscoa
Rosada, ou Pentecostes. E, salvo adaptações regionais sem particular significado, foi
assim ininterruptamente no período compreendido entre o século XIV e a primeira metade
do XVI, curiosa coincidência com o apogeu da expansão portuguesa liderada pela Ordem de
Cristo, circunstância que fez Jaime Cortesão declarar achar-se firmemente convencido de
que o culto do Espirito Santo foi a forma típica e especificada que tomou a fé em
Portugal durante um certo período e que explica em boa parte a sua história.
Perante
este quadro, será de toda a conveniência apurar quais, efectivamente, os pontos de
contacto existentes entre a doutrina secreta dos Templários e a devoção ao Paracleto
sob a forma exclusiva que assumiu em Portugal.
Convém recordar, entretanto, que uma
autêntica doutrina secreta implica a vigência de uma tradição. Esta, apesar de poder
assumir diferentes roupagens consoante os lugares e as épocas, difere do estereotipo
folclórico, porquanto, ao invés dele, pressupõe uma pedagogia transmutacional
sistematizada e adequada aos fins em vista. Além de que implica a existência de uma
elite oclusa a quem compete preservar (inviolável e sem soluções de continuidade) um
conjunto de meios consagrados que garantam a tomada de consciência de princípios
imanentes de ordem universal, bem como proceder à sua gradual e escalonada transmissão e
revelação. Uma adequada
definição do conceito deverá, justamente, implicar uma filiação ao espiritual de
mestre a discípulo, uma influência formadora análoga à vocação ou a inspiração,
tão consubstancial ao espirito quanto a hereditariedade ao corpo.
A
uma tal dispensação se dá o nome de iniciação. A Fernando Pessoa encarrego de
esclarecer em que consiste:
Iniciar alguém é conferir-lhe conhecimentos que ele não poderia obter por si,
quer pela leitura de livros, quer pelo exercício da sua inteligência por forte que seja,
quer pela leitura de livros à luz dessa mesma inteligência.

Uma das mais veementes sugestões quanto à existência de uma doutrina secreta no
seio dos Templários Peninsulares é o sirventês de Gil Peres Conde, fidalgo luso ao
serviço de Afonso X de Castela:
porque o não pude aí
achar
à ceia nem ao jantar.
A estas horas o busquei
nas pousadas dos
privados,
Perguntei a seus prelados
por Amor e não o achei.
Têm que o não sabe
El-Rei
que Amor aqui não
chegou,
que tanto engano dele
levou.
E não veio, nem o
busquei
nas tendas dos
infanções
e nas dos de criações,
e dizem todos:
Não sei.
Perdido é o Amor com
El-Rei,
porque nunca em hoste
vem,
mas, se dele algo tem,
dir-vos-ei eu onde o
busquei:
entre estes frades
templários,
porque já aos
hospitalários
por Amor não
perguntarei.
O
Amor em questão não pode ser outro senão o Amor iniciático, antagónico da cupiditas
temporalia, a Gaia Ciência neo-platónica e frequentemente anti-Roma dos jograis, vigiada
de perto pelo Santo Oficio por heterodoxa, como não se inibirá de advertir Sá de
Miranda na Écloga Basto quando diz: O entendimento que é nosso não no-lo querem deixar. Tópicos tão comuns como o do banho e da lavagem
ou purificação na fonte dos cabelos, garcetas (tranças) e camisas alvas, em
associação com as dõas, ou Laços de Amor (cintas ou
fivelas, ataduras, atilhos, fios e sirgos, laços, nós e cordas), que
ligam, atam ou cingem os cabelos e camisas, adquirem inesperado significado se
perspectivados em função das acusações proferidas contra os Templários. De resto, o
tema do encontro dos namorados junto a uma fonte, cujo paradigma é a poesia bíblica
(Salmo XLI), recebe a definitiva consagração no episódio em que Jesus e a Samaritana
(joão, IV, 25 26) se detêm sofrendo de Amor na Fonte de Jacob.
A
intromissão do cervo (tão grata a Pero Meogo, D. João Soares Coelho, D. Dinis, Estevão
Coelho, Camões e também assinalada na lenda do templário D. Fuas Roupinho) confere ao
cenário, de notória inspiração gnóstica, o sentido derradeiro que lhe convém. A
iniciação proposta é agora, sem margem para duvidas, sancionada pelo centro espiritual
supremo, porquanto o animal protagonista transporta nas hastes a réplica simbólica da
Árvore da Vida, ou Eixo do Mundo.
Qual,
todavia, o papel reservado aos Laços de Amor ?
Subjacentes
ao conceito de ligação, são discerníveis dois níveis de significação fundamentais:
um de feição apotropaica, como meio de ataque e de defesa contra enfermidades,
sortilégios, etc., e outro eminentemente cosmológico. Neste específico e derradeiro
contexto, a cordoalha e a malha ou rede denotam, à imagem do Agrénon de Delfos, a subtil
textura que liga todos os planos e estados de existência entre si e ao próprio
Princípio, como parece depreender-se da seguinte passagem de Oseias (XI, 4): Eu os atraí
com as cordas com que se atraem os homens. com as prisões da caridade. 
No
que concerne aos nós e aos laços, eles tendem à conservação da força mágico-vital
cósmica, o princípio vivificador que a língua hebraica grafa na raiz Hou e o platonismo
e o neoplatonismo consagram sob a designação de Anima Mundi. Embora num registo diverso,
Aristóteles vem ao caso ao admitir que em toda a tragédia há o nó e o desenlace. O nó
é constituído por todos os casos que estão fora da acção e muitas vezes por alguns
que estão dentro da acção. O resto é desenlace. Digo, pois, que é nó desde o
princípio até àquele lugar onde se dá o passo para a boa ou má fortuna; e o desenlace
a parte que vai do início da mudança até ao fim.
Concretizando
a lição do mestre, Alexandre, discípulo do Estagirita, desenlaçou o próprio destino
ao cortar com a espada o nó górdio, único obstáculo que entravava a consumação do
oráculo quanto a tornar-se senhor da Ásia. Seja como for, o Laço de Amor é um elemento
omnipresente na iconografia de todas as religiões. Das estatuas Thoracatas das divindades
e imperadores romanos, as quais ostentam cinturões atados sobre a couraça com uma
laçada simétrica, se contaminaria o cristianismo, que persistiu na sua manutenção como
distintivo hierárquico exclusivo do sacerdócio, com a função de arregaçar a Alva à
cinta sob os paramentos. Sinal do vínculo, ligadura e subordinação ao sagrado, ao seu
Amor e redenção (Job, IV, l2), o uso desse cíngulo em torno dos rins (sede dos humores
libidinis estendeu-se a santos e heróis, autênticos campeões do entrosamento das
potências da alma (Memória, Entendimento e Vontade), condição sine qua non para o
acesso à imortalidade virtual, suscitada pelo alumbramento do Amor unitivo.
Um achado arqueológico realizado
no decurso de escavações empreendidas no mais aureolado de quantos lugares abrigaram no
nosso país a Ordem do Templo: o Castelo de Almourol, vai justificar muito do aqui dito:
Aí
foram resgatadas, em l899, 22 placas destinadas a ornamentar os peitorais ou gamarras dos
arreios, cuja análise desmente quantos ainda crêem, ao arrepio da tradição, quer oral,
quer escrita, não passar de romântica fábula aquele pego no Tejo ter servido de palco a
Cortes de Amor. Nunca, que se conste, foram extraídas quaisquer ilações do achado,
simplesmente alvo de uma nota técnica por parte de Garcez Teixeira.
As peças em apreço, que se crê possam remontar aos séculos XIV e XV,
são circulares, recortadas em cobre e esmaltadas a azul e ouro, e os caracteres, unhos
abertos a buril. Com base no supracitado registo, eis a descrição daquelas que legitimam
a interpretação que se propõem: 1) Ao centro, um cavaleiro com armadura completa,
excepto o elmo, e com espada ajoelha voltado para a direita, de mãos postas. Diante de
si, uma dama, de pé e em cabelo, com longo vestido, levanta com as duas mãos um elmo
para o colocar na cabeça do cavaleiro. À retaguarda deste, vê-se, espetada no solo, uma
lança com bandeirola triangular ostentando uma pequena cruz ao centro. Mais atrás,
avistam-se a cabeça e os quartos dianteiros do cavalo, distinguindo-se perfeitamente as
rédeas, o freio, as faceiras e a testeira. Completam o desenho uma árvore cuja copa
surge sobre a cabeça do cavaleiro e uma outra mais pequena por detrás da dama. Na orla,
a legenda: + AMO RVOU ME UACO FICA O CORACOM MEU; 2) Tomando quase toda a altura, uma
dama, de frente, com vestido de mangas perdidas, agarrando com a mão esquerda uma flor
cuja haste e folhas ocupam o lado direito do círculo. A mão direita está na cintura.
Aos pés, um grande leão deitado. O outro lado do círculo é ocupado por outra planta de
folhas largas. Uma fita que se apoia por um extremo no peito da dama diz: TEXER AMOR.
O "Tomaios", S. Tomé
e Tomar
Mediante uma prática muito grata
ao pensamento simbólico, a metonímia. (isto é, o emprego de um termo por outro),
torna-se lícito acrescentar que o Tomaios, ou Baptismo da Face, evoca o Apóstolo
Dydimus, o Gémeo de Jesus, S. Tomé, Tôma em aramaico e, naturalmente, Tomar, cuja
Charola tem por orago S. Tomé de Cantuária (Thomas Beckett), assim baptizado por ter
vindo ao Mundo a 21 de Dezembro, dia de S. Tomé Apóstolo, de quem se pode considerar o
reflexo imaginal. Em qualquer caso, não deixa de ser sintomático que um dos portugueses
mais devotamente fiéis do Apóstolo S. Tomé, patrono dos arquitectos e geómetras, tenha
sido administrador da Ordem de Cristo.
É óbvio que se alude ao infante Henrique de Sagres, o qual deixou expressa tal ideia no
seu testamento, acrescentando que a sua devoção se estendia igualmente a Senhora Santa
Maria e ao Divino Paráclito.
Note-se
que já o cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira afirmara do Navegador que ele fora alumiado
da graça do Espírito Santo e movido por divinal mistério, constatação, se bem que
hagiográfica, implicitamente admitida no mote da sua empresa pessoal Talent de bien
faire. Tem todo o cabimento o juízo de Fernando Pessoa a propósito dos três possíveis
níveis de significação dele:
l) Executar com a máxima perfeição
(bien faire) e inteligência
(talente) todos os
actos da vida e,
sobretudo, todos os
actos da vida superior.
2) Fazer o bem.
3) Criar a vinda do Bem.
Nesse mote se condensam, efectivamente, as linhas mestras do programa da epopeia
marítima
portuguesa. Motivada por expectativas milenaristas e messiânicas colectivas,
sincreticamente compendiadas no Auto do Império, a gesta marítima resolve-se na demanda
do Paraíso perdido, esse Centro Espiritual supremo só alcançável, como ensinam
escritos espirituais medievos como o Conto do Amaro, a Navegação de S. Brandão, o Livro
de José de Arimateia ou o Orto do Esposo, pelo nauta audaz que, em demanda do seu
destino, embarque nas naus da iniciação e empreenda a travessia do Oceano da Alma,
modelo dos oceanos do Mundo, para dilatar Fé e Império.
Exactamente porque o trabalho das armas contra
infiéis e por serviço de Deus, que é fama ter sido uma via de redenção exclusivamente
guerreira e colectiva, não passava para os iniciados da Ordem de Cristo da vertente
exterior e esotérica da Cruzada, a qual foi também, e essencialmente, individual,
contemplativa e ascética.
Na verdade, a expansão portuguesa não foi nem
fruto do acaso, nem um feito político da Coroa ou de cortesãos esforçados, antes a
missão de uma ordem iniciática. Por dilatar a Fé e o Império se entenderá então ter
ultrapassado, depois de arrostar com toda a espécie de brumas, temporais e contratempos,
o tormentoso mar das paixões individuais, condição requerida para passar além do
Bojador e descobrir, que o mesmo é dizer desocultar, o Mundo da Salvação, dando
testemunho dele.
Não nos faltam em Portugal os exemplos da
assunção referida. É deveras sintomática a apologia da Milícia de Cristo apresentada
por Gil Vicente no Auto do Inferno, no qual só o Parvo e os quatro cavaleiros da Ordem
mortos no ultramar acedem ao paraíso.
Contudo, em nenhuma outra parte
como na igreja manuelina do Convento de Cristo, em Tomar, haviam de ser cristalizados tão
declaradamente, e, ao mesmo tempo, tão subtilmente, os sinais evoca- dores da doutrina
esotérica de que a Ordem, que uma tradição ininterrupta tornou herdeira universal dos
Templários, foi a fiel depositaria.
Aí ganha plena expressão a máxima de S. Paulo
Nós agora vemos a Deus como por um espelho em enigmas ou uma outra do
Talmude: Quem quiser perceber o invisível observai o visível. Com efeito, a semelhança da Sagrada Escritura,
que há-de ser escrutinada segundo três significações ou sentidos, do mesmo modo a arte
nela inspirada estará condicionada pelos mesmos critérios exegéticos: os sentidos
literal ou histórico e espiritual ou místico (este subdividido em 3 planos: alegórico ou sentido da fé, tropológico ou
sentido moral e anagógico ou sentido escatológico). 
Muito a propósito, alerta o professo Frei Isidoro Barreira para a lição implícita num
dos motivos mais controvertidos da celebre janela da Casa do Capitulo:
Os segredos escondem-se no
coração como as raízes na terra e assim deve estar encoberta a raiz na terra como o
segredo no peito do homem; e assim se deve esconder o segredo aos homens, como as raízes
aos que passam por cima delas, que vendo a árvore não vêem a raiz em que se sustenta
[...].
Como o que se observa na
janela não é a árvore, que secou, mas a sua raiz, o segredo desvenda-se a quem o
encerre no peito. Em todo o caso, convirá ser perscrutado fazendo extravasar a atenção
do observador da mais bela janela de Portugal para a fachada poente, na qual ela se rasga,
e desta para a totalidade do edifício que a tem por geratriz e, é indiscutível,
constituía um todo legível para o homem de Quinhentos. Uma sintaxe que consegue
tornar-se ostensiva confere-lhe uma legibilidade cuja polissemia, tanto formal, quanto de
sentido, é verdadeiramente encantatória e apenas se acha condicionada pelo horizonte
cultural e a sensibilidade de quem se proponha entrevê-la. Seja como for, a árvore, que
a tradição escriturística compara ao Profeta por cujos frutos (ou palavra profética)
este se dará a conhecer, tem um papel axiomático, dir-se-ia até genético, na
composição da fachada ocidental.
Os
botaréus que a confinam lateralmente são troncos, mais aparentados às duas colunas
Jakin e Boaz do Templo, onde se fixam as peças heráldicas das duas ordenações
hierárquicas ou, como preferiria S. Bernardo, das duas espadas, ou seja, a Espiritual, ou
Solar, da mão direita, e a Temporal, ou Lunar, da esquerda.
Assim,
à dextra (esquerda do observador) é a árvore da hierarquia celeste, ou Coluna de
Misericórdia, que se patenteia: as suas raízes encontram-se semicortadas, manifestando o
distanciamento relativamente ao orbe material por parte das coortes angélicas (suspensas,
uma vez que não assentam em mísulas), que, por sua natureza especifica de mensageiros,
constituem uma cadeia eterna e imutável (que não quebra nem e passível de sofrer
ajustamentos), com a função de comunicar ao mundo terrestre a Lei de Deus.
Á sinistra (direita do observador), iconografa-se
a hierarquia terrena, ou Coluna de Rigor: estão íntegras as raízes e as efígies
representam Anjos Terreais, nome que António Rodrigues atribui aos Reis de Armas, ou Arautos
Régios, autênticos duplicados desses seres transfigurados pela graça de Deus em seus
lugares-tenentes, com a função de administrarem de acordo com a necessidade e o
arbítrio próprio que o imaginário concebeu como um cinto com fivela a Lei
Divina. Todavia, se a consabida tese do abade de Claraval valoriza a Teocracia papal, cuja
infalibilidade advoga, no que foi coadjuvado pela corrente guelfa, em Tomar a perspectiva
e diversa. Tudo conduz a poder-se assegurar que se lhe opõe, visto adoptar a perspectiva
libelinha, a qual, além de questionar a infalibilidade do bispo de Roma, encarecia a
supremacia do imperador e do poder laico sobre o eclesial, numa linha de indeclinável
simpatia pelas teses joaquimitas. 
Ousaria uma instituição
com os pergaminhos da Milícia de Cristo propagandear abertamente tais princípios,
habilitando-se a ser arguida de heterodoxa? E não estarei a levar longe demais nas suas
implicações o que pode muito bem não passar, como sustenta o pertinaz e ingénuo
positivismo de uns quantos, de mera exuberância decorativa?
O documento datado de
Almeirim, em 24 de Abril de 1510, onde o Venturoso determina o arranque da obra fornece os
indícios de que o monarca se encontrava avisado, se não participara mesmo na
elaboração do programa iconográfico dela, o que não deixa de ser compreensível à luz
do facto de D. Manuel ser grão-mestre da Ordem patrocinadora dos trabalhos e, mormente,
alimentar a hagiografia de cunho providencialista e finalista que o aureolava desde o
nascimento, fazendo dele, conforme convinha à profecia de Isaías, quer uma
reminiscência dos reis-sacerdotes, quer o carismático e supremo defensor da cristandade,
ungido por Deus para cingir a tiara de uma renovada e ecuménica cosmocracia.
A divulgação
além-fronteiras do gibelinismo da Coroa Portuguesa na transição do século XV para o
XVI pode, inclusivamente, depreender-se de uma gravura alusiva a Portugal que ocorre no
Liber Chronicarum (Nuremberga, 1493), de Hartmann Schedell, na qual uma árvore Seca é
exibida em primeiro plano como se ela fosse o próprio distintivo do reino. Mas até os
momos representados na presença de D. Manuel e da corte aludiam desinibidamente ao tema.
Segundo uma lenda,
corroborada por passagens do Livro de Marco Polo e do Livro das Viagens do Infante D.
Pedro, composto por Gomez Santisteban (1515), essa verdadeira árvore solar, solque,
vasta, alta, duradoura) ou da Vida, ocupante do centro do paraíso terreal. teria murchado
no mesmo dia em que Jesus fora crucificado, dando início a um período de decadência só
superado quando o homem caído se revestisse das Vestes de Luz do Homem Novo, (S. Paulo,
Epístola aos Efésios, IV, 24).
Chegar ao contacto com o Preste
João traria à árvore, em cujo reino se situava) o tão desejado viço e asseguraria a
consequente reconquista do estado paradisíaco perdido, o Milénio, que o Duque (Dux), ou
Senhor Universal, se encarregaria de manter até à consumação dos tempos, isto de
acordo com a concepção que faz da árvore da Vida um prémio para os justos.
Em abono da assunção anterior, vem um episódio
que vale a pena mencionar.
detentora de propriedades profilácticas e mágicas, e a alcachofra, inflorescência do
cardo (Cardum coeli, ou Cardus beneductus, o cardo-santo), a qual é sujeita ao fogo pelo
S. João para, no caso de reverdecer, assinalar o cumprimento do anelo de exaltação
intima.
Esse
jardim simbólico corresponde à representação visual-esquemática do mistério das
manifestações do Supremo, tal como a Kabbalah tanto a judaica como a cristã,
tão cultivada na época o concebe.
Segundo ela, e em traços largos, é através da
árvore dos Sefirot, qual Tronco de Jessé, que a natureza divina enviada ao Mundo adquire
a sua vertebração.
São
três as colunas da árvore dos Sefirot, neste exemplo também elas próprias árvores. Se
as laterais, ditas de Misericórdia e de Rigor, tendem a manifestar a intersecção da
História Sagrada com a Historia Nacional que os Reis de Portugal, quais émulos dos de
Israel, encarnam, a coluna central ou mediana é a via da Glória do Eterno, o Ein-Sof, ou
Encoberto ... Nela coincidem, como pólos teofânicos, alfa e ómega, o princípio e o
fim, a primeira e a última das dez Sefiras: Kether (a Coroa) e Malkuth, o Reino). 
Assim acontece, com efeito,
em Tomar. Ao centro, no topo, avista-se Kether Elyon, a Coroa Suprema de Deus, enquanto na
base, sob a Janela, o grupo escultórico constituído pela árvore Seca evoca o Reino de
Deus, simbolizado pelo seu representante terrestre.
Sobrepondo-se a Malkuth, a
nona Sefira, Iesod, (o Fundamento), é claramente assimilável à Janela do Capítulo, a
Assembleia das Cabeças (Caput) dos Perfeitos e Justos, obreiros do Reino de Deus à face
da Terra e mediadores na transferência da sua luz de oriente para ocidente, direcção
cardeal para onde se volta essa que se pode chamar, legitimamente, autêntica Janela do
Céu. Aliás, não é aleatória a orientação do edifício, nem tão-pouco a
circunstancia de o eixo dele caminhar da Charola, pela sua estrutura intrínseca, síntese
da história desde Adão e Eva (os primogénitos isentos de conhecimento ali retratados 16
vezes) e exaltação da Jerusalém histórica, para a igreja manuelina, o Tabernáculo da
Nova Aliança. Velando, ou não constituísse ela a vista de Deus, o seu terceiro olho, a
sexta Sefira, Tiferet (a Beleza), isto é a Chéquina propriamente dita, é encarnada pela
Rosácea, elemento cujo designativo é falante e, formalmente, sugere um vórtice para
onde a fecundante espiração do Altíssimo converge compelida pela dupla qualidade divina
da Força e da Sabedoria que o Grifo ou Esfinge na sua base, como vigilante dos caminhos
da salvação, evoca. 
Dante acha-se
necessariamente implicado nesta "mostração". A adesão do florentino aos
ideais gibelinos serve também de abono ao exercício em curso. Efectivamente, a visão da
árvore que reverdece teve-a ele, de acordo com trecho do Purgatório (XXXII, 38, 50, e
XXXII, 50-60) da Divina Comédia, a seguir à revelação do rosto da dama sobrenatural
(XXXI, l33, l40), a Matrona, Chéquina, ou Rainha dos Anjos (que conduz à árvore da
Vida), significativamente comparada ao "esplendor da viva luz eterna", a qual
lhe foi mostrada quando via o Grifo que, imutável em si, se transformava na sua imagem
reflectida.
Por nunca haver aludido expressamente ao busto sob
a árvore Seca, não significa isso que ele desmereça a nossa atenção. Ao invés, a sua
presença ali, emanando de uma cordoalha enlaçada e sustentando-se das
raízes da árvore murcha do paraíso, só acrescenta verosimilhança a tudo o exposto,
porquanto nele se retracta o Novo Adão prognosticado por Esdras, o qual durante três
dias aguarda sob uma árvore, ate que uma voz se lhe dirige, proferindo uma frase
enigmática: "O mundo está dividido em dez partes e chegou à decima", isto é,
atingiu a derradeira Sefira, Malkuth, o Reino, que corresponde aos Tempos Messiânicos.
Apenas convém acrescentar que, na origem, a obra
comportava o já referido busto e quatro outras cabeças concebidas para ocuparem
posições simétricas duas a duas nas fachadas norte e sul, nesta última. sob as janelas
nela delineadas por Diogo de Arruda, coincidindo em qualquer dos casos com os laços da
cordoalha que circunda o edifício como para hermeticamente o encerrar e proteger.
Na época, a via exclusiva de acesso ficava sendo o
portal sul, concebido por João de Castilho. E mesmo esse não omitia o caracter reservado
do recinto, destinado apenas àqueles que o Amor, sugerido pelo Cupido empunhando uma seta
na sua mão direita e visível no fecho da arquivolta maior, ferisse para neles suscitar o
segundo nascimento ou, na imagética de S. Paulo, o surgimento do Homem Novo a que alude
uma fieira de ovos só visível por quem se tenha já internado, leia-se iniciado, no
Templo.
Quererá então fazer-se
tábua-rasa do tão encarecido simbolismo marítimo manuelino. De forma alguma, porquanto
a navegação indubitavelmente constitui o seu cerne, ou não fossem os Cavaleiros de
Tomar, à imagem dos Discípulos do Cristo Jesus, pescadores de almas e os seus actos os
de novos apóstolos designados por renovado evento pentecostal. 
Em consequência, as bóias de cortiça (piecettes) da igreja manuelina de Tomar, sendo
flutuadores, são anagogicamente símbolos salvíficos e a cordoalha, remetendo para o
apetrecho da faina marítima, não deixa de alegoricamente apelar para a ligadura das
três potências da Alma. Contudo, se a corda é símbolo da natureza universalizante,
representando a luz ou essência divina. o Amor e a relação com o divino, o laço ou o
nó, pressupondo a união das três naturezas manifestadas em todas as coisas criadas por
Deus, representa a vinculação ao circuito do espirito mediante voto indissolúvel, o que
justamente constitui a via interior mística.
Diversas aplicações, tais como
os tectos e pavimentos mudéjares em laceria, as marcas tipográficas de
uns
quantos impressores de nomeada, o camaroeiro da rainha D. Leonor ou a esfera armilar de D.
Manuel, são celebres. Torna-se, portanto, fácil aceitar que as cabeças saindo dos nós
em Tomar e os navegadores ligados ao alto ou buscando a esfera do sacral do claustro dos
Jerónimos não se ficam a dever a mero recurso formal retratístico (no que afinal vieram
a tornar-se). E por análoga soma de razões nem mesmo as 204 insistentes legendas
contidas em duplos laços de amor do portal das Capelas Imperfeitas hão-de continuar a
ser consideradas única e exclusivamente a divisa do Eloquente.
Neste contexto, em que a literatura de ideal atinge o seu clímax, sequela de um ambiente
prenhe de antevisão e do sentimento de que a descoberta do Novo Mundo indiciava a
derradeira reforma do género
humano e o Juízo Final, que outras razões senão o
romanismo exacerbado de D. João Ill o terão movido a entregar nas mãos do celerado Frei
António de Lisboa o destino da coluna vertebral do reino; a Ordem de Cristo ? A reforma
por ele perpetrada em 1529 baniu, chegando a persegui-los, alguns dos mais distintos
dignitários da ilustre cavalaria que se opunham a que fosse transformada em freiria de
clausura, como finalmente veio a acontecer.
Assistiu-se então à
sistemática destruição de tudo quanto pudesse sugerir as glórias transactas quer do
Templo, quer da Ordem sua sucessora. Com esse objectivo, os arquivos documentais foram
quase integralmente desbaratados no decurso de autênticos autos-de-fé que tiveram lugar
enquanto se
procedia,
na impossibilidade do seu total apeamento, à substituição ou acrescentamento por
sobreposição de parte significativa da obra construtiva promovida por D. Manuel no
óbvio intuito de lhe retirar coerência ou até subtrair à vista.
Inserem-se estes episódios
num bem mais vasto programa que, em última análise, se cifrou no desvirtuamento do anelo
de fraternidade universal e de ecumenismo cultural mediante a instauração do absolutismo
religioso, do centralismo monárquico e aristocrático e, nomeadamente, da relação
pregada nos púlpitos pelos agentes do Santo Ofício.
Percebe-se assim o acerto
da análise do professos Agostinho da Silva quando afirma que o Brasil "não foi um
território que Portugal submeteu; foi o generoso acolhedor de todos aqueles que não
queriam submeter-se a Portugal.
Do Templo aos
Cavaleiros do Amor
A popularidade do tema da Cavalaria Espiritual no Portugal quinhentista
depreende-se de um leque de situações e atitudes muito variadas. Uma das espressões
mais insólitas é-nos
facultada pela voga de um episódio bíblico cuja hermenêutica nunca foi pacifica.
Alude-se à cana do Encontro de Abraão com Melquisedeque.
Em
S. João Baptista de Tomar, guarda-se aquela de entre essas tábuas que inequivocamente
sintetiza o sentido derradeiro da missão de que Portugal, o Alferes da Fé no entender do
avisado Gil Vicente, se viu investido por haver protegido a Ordem do Templo,
impossibilitada, na sua forma original, de fazer jus ao compromisso assumido aquando da
sua constituição, o qual consistia:
1) Trabalhar por oferecer novos
mundos ao Mundo, estimulando o contacto das suas desvairadas gentes para que,
animando-se pela miscigenação rácica, a substância vital em cada ser passasse a
constituir o suporte de um renovado biótipo de humanidade;
2) Empreender a unificação de todos os credos
numa religião sem credos que haverá o nome de Quinto Império. Que outro papel senão o
de anuncia-lo caberá aos representantes das três religiões do livro um judeu, um
muçulmano e um cristão , que são visíveis assessorando o guardião do Graal, o
vaso onde se recolhe o sangue, esse tão especial fluido contendo em si todas as
modalidades passíveis de propiciar a transmutação do ser ?
Este pormenor não poderá ter
deixado de constituir matéria para meditação, inspirando a actividade desenvolvida
pelos afiliados na Milícia de Cristo, mesmo após a reforma desta em 1529. É que, apesar
de mais uma vez abalada na sua estrutura, a Ordem Templária de Portugal não interrompeu
o seu magistério. Perpetuou-o pelo menos até ao ano de 1888, é bem de ver em círculos
reduzidos e no meio de apertadas medidas de segurança, porquanto os cães ladradores do
Santo Oficio vigiavam.
A
literatura bucólica e pastoril portuguesa dos séculos XVI e XVII parece não constituir
outra coisa senão o registo dos capítulos desses pastores e ovelheiros enamorados de
Deus. Fernão Alvares do Oriente (1540 1595) legou-nos na sua Lusitânia
Transformada o que pode ser considerado a acta dos importantes conclaves iniciáticos de
Tomar.
Num cenário adjacente ao
Convento de Cristo, a mata dos Sete Montes, surpreendem-se furtivos e sob os auspícios da
noite, os passos daqueles que Faria e Sousa apelidou de Nova Cavalaria e Sampaio Bruno de
Cavaleiros do Amor.
Salvo as excepções que confirmam a norma, a critica tem-se mostrado
desatentíssima no que respeita aos conclaves descritos por Fernão Alvares do Oriente,
sobretudo porque o cenário onde tem lugar é um espaço ocupado pelo mistério. O autor
da Lusitânia Transformada, titulo obviamente alusivo a uma desqualificação da grei
(desconcerto do mundo) cujos contornos se inferem do argumento, retracta as adjacências
do Convento de Cristo com o característico da Arcádia:
[...] Bem junto à ribeira do antigo Nabão, a par
de um lugar fresco, a que os seus moradores por justa ocasião chamaram os Sete Montes,
porquanto sete montes o rodeiam todo, está uma floresta tão oculta aos olhos dos
pastores, que parece que não só à vista, mas também
aos pensamentos se nega entrada nela. Habitavam juntas neste sítio muitas
Ninfas que, consagradas ao exercício de Diana, se negavam à comum ocupação da gente,
fazendo de si ao Céu, sacrifício perpétuo e consigo oferecendo à vista cá na terra um
retracto natural do mesmo Céu.
Uma tal paisagem, émula do Paraíso, tem
sido tradicionalmente associada aos ritos iniciáticos dos Templários e ao seu mítico
tesouro. Alguns autores cifram-no em dezenas de milhares de francos-ouro, estimando-o com
base nos rendimentos arrecadados durante cerca de dois séculos e provenientes de bens
imobiliários, doações, despojos de guerra, actividade bancaria, fiscal e comercial.
Porém, se a extinção do Templo
não trouxe benefícios quer à Coroa Francesa, quer à Ordem do Hospital, uma vez que os
agentes de Filipe, o Belo, jamais lograram apoderar-se do que quer que fosse, (salvo os
consideráveis bens imobiliários da instituição), onde se encontravam as fabulosas
riquezas atribuídas à Milícia ? As hipóteses aventadas de se encontrarem escondidas em
Chipre, na floresta do Oriente, na Comenda de Charentes, no Castelo de Arginy (Ródano),
em Inglaterra ou na Fortaleza de Gisors nunca produziram qualquer resultado palpável.
Segundo o depoimento do Irmão Jean de Châlons, de Nemours (diocese de Troyes), três
carroças de palha puxadas por 50 cavalos
saíram, a 12 de Outubro (véspera da prisão dos cavaleiros pelos esbirros ao serviço de
Filipe, o Belo), do Templo de Paris, conduzidas por Hughes de Châlons e Gêrard de
Villers, transportando Tolum thesaunm Hugonis Peraldi [Hugo de Pairaud, grande visitador de França]. Seguiram, ainda conforme um
testemunho citado por Gerard de Sede, em direcção à costa, onde eram aguardados por l8
navios da Ordem. Qual o seu destino: Escócia ou Portugal ? Uma passagem sibilina das
Centúrias de Nostradamus refere-se a um prodigioso tesouro templário que se presume
possa vir a ser encontrado em território peninsular:
Posto tesouro
templo citadinos Hespéricos Neste retirado em secreto lugar: O tempo abrir os laços
famélicos Retomam, arrebatadas, presa horrível no meio.
Será licito supor um nexo
entre tais especulações e as obras ditas de restauro e reintegração que serviram como
fachada às pesquisas efectuadas nos principais monumentos do Templo em solo português
durante a década de 30 ?
Dada a circunstância de terem
contado com o concurso e supervisão técnica de cidadãos alemães,
geralmente enquadrados por germanófilos locais activistas da Legião Portuguesa (o padre
José Guilherme citou os nomes de Antunes da Silva e do então pároco dos Casais,
Junceira, José Francisco), que, como se sabe, foi o caso de Tomar, o quesito ganha
consistência, porquanto é público o Reich de Hitler ter estado implicado na caça aos
tesouros templário e cátaro.
Não é, entretanto, ocioso
recordar, glosando Plutarco, que nem o ouro nem a prata fazem a felicidade dos Deuses, nem
o trovão e o relâmpago provam o seu poder, antes a ciência e a sabedoria, por outras
palavras, não é suposto, ou mesmo plausível, que o tesouro Templário fosse
exclusivamente constituído por metal sonante. As cerca de 9000 comendas que detinha dão
uma ideia do poder dos Templários. Os arquivos do Templo volatilizaram-se quase por
completo e pode imaginar-se o volume que representariam. O que resta da contabilidade é
insignificante, apesar do papel primordial que o tesoureiro detinha na Ordem Aliás, se
transferido para Portugal, é improvável que o tesouro tivesse sobrevivido à
administração do infante D. Henrique.
Sendo assim, o móbil das buscas teria de ser diverso. Inspirado, porventura, naquele que
originou as diligências compreendidas pela Companhia de Jesus com vista, à extinção
canónica da Ordem de Cristo. Com efeito, só Frei Duarte de Araújo, enviado de
emergência a Roma, impediu que os Jesuítas entrassem automaticamente na posse
administrativa dos Conventos de Tomar, Coimbra e Luz.
Que faria correr os Inacianos?
Que descobrira a Companhia
de Jesus em
Tomar capaz de desencadear uma cobiça tão descarada ?
Que magno arcano ocultaria a
capital da Ordem Templária de Portugal?
Tomar, nova Jerusalém,
capital do mistério

O doutor Pedro Álvares regista,
no século XVI, a justificação apresentada Inquirições de D. Dinis, depois muito
glosada, sobre como os Templários se haviam
instalado em Tomar. De acordo Com ela, tendo aquele monarca mandado proceder a
inquirições no ano de 1317 sobre quem
fundara o primeiro povoara o sítio, Domingos Pais Roussado, morador e vizinho da então
vila afirmara que o mestre com os freires vieram àquele lugar convém a saber onde agora
está Santa Maria de Tomar e acharam que fora povoada de antigo (...) e então o dito
mestre mandara lançar sortes (...) e lançadas sortes três vezes caíra a sorte naquele
monte onde agora se vê o Castelo de Tomar e que então se acordaram
O que convém reter é,
sobretudo, a referência à prática do lançamento de sortes, a qual indicia a
inequívoca adopção de critérios geomânticos e, por consequência, também a
utilização de determinadas regras astronómicas consagradas pela tradição. De resto,
do mesmo tipo daquelas que, posteriormente, capacitariam os navegadores da Ordem de Cristo
a estimar e traçar as rotas das suas empresas marítimas !
Desde o século XII e até
Quinhentos, a história urbana de Tomar não se pode desligar da acção de Gualdim Pais,
do infante D. Henrique e de D. Manuel I. O grão-Mestre templário foi quem esboçou um
primeiro plano de urbanização geometrizante
na Vila Baixa, entre a Ribafria.
O Infante
desenvolvê-lo-ia, lançando nessa área uma malha ortogonal percorrida por artérias perpendiculares ao rio, e,
simultaneamente, transferiria a Domus Municipalis do Chão do Pombal para a Praça de S.
João. O engrandecimento de Tomar, verificado a partir de 1417, será impulsionado ainda
mais por D. Manual I. Com o seu programa construtivo, ficarão em definitivo assentes as
coordenadas que tornam a capital da Ordem de Cristo, de que foi o primeiro monarca
grão-mestre, o reflexo imaginal do pólo teofânico conjuntamente venerado por judeus,
cristãos e muçulmanos; isto é, a Santa Cidade de Jerusalém. Não falecem os argumentos
probatórios da translação.
Aquele mais frequentemente
invocado para ilustrá-la é a Rotunda, ou Charola, cujo arquétipo se adivinha na
Cúpula, (Kubat-Açacra) edificada pelo califa omíada de Damasco Abd-al-Malik 691), e,
significativamente, glosa constante na pintura parietal do Santo dos Santos de Tomar.
Todavia, os paralelismo
não se quedam por esta tão apregoada constatação memorando o primitivo Templo de
Salomão, em Jerusalém. Pois se, em Jerusalém, o vale de Josaphal e o curso do rio
Cedron separam a cidade do monte das Oliveiras, em Tomar o vale destinado à urbe,
percorrido pelo rio Grande, aparta a Casa-Mãe Provincial dos Pobres Cavaleiros de Nosso
Senhor Jesus Cristo da sede do nullius diocesis de Nossa Senhora das Oliveiras, ou do
Olival, sita a nascente, como o monte palestiniano homónimo.
Sendo assim, torna-se evidente por que motivo a
Horta dos Frades e os seus moinhos-lagares adjacentes, no sopé de Nossa Senhora do
Olival, são réplica do Horto das Oliveiras ou de Getsemani, isto é, literalmente, da
prensa de azeite, canário da prisão de Jesus (Mateus, XXVI, e loucas, XXI).
Do
mesmo modo, não deixa de ser significativa a ambiência lendária (que busca legitimidade
em S. Frutuoso, S. Martinho de Dume e Paulo Orósio) cujo pólo e a enigmática figura de
Santa Iria. A hagiografia cristã não-apócrifa só conhece uma Iria canonizada, e essa
viveu e foi martirizada em Tessalonica, na Grécia. Não obstante, aponta-se como
tradição, documentada desde o século XIV, que o seu martírio terá ocorrido junto das
margens do Nabão, numa cidade denominada Nabância, da qual são omissas todas as fontes
e autores antigos que se ocupam da descrição do território peninsular sob os domínios
romano, visigótico ou qualquer outro.
A aparente teimosia. de alegar tal martírio na
Lusitânia, no local onde se situa o pego dito de Santa Iria, parte integrante do seu
extinto convento, dá que pensar. Não se estará perante a invenção ou adequação de
um relato hagiográfico a circunstancias que, dessa forma, envoltas pelo sagrado, se
haviam de perpetuar mais facilmente, transmitindo às gerações vindouras um conhecimento
capaz de ser descodificado por quem fosse detentor da chave simbólica para a sua
interpretação? Sobretudo porque é nas Inquirições de D. Dinis (1317), a propósito da
instalação dos Templários ali, que pela primeira vez surgem o seu nome e respectiva
hagiografia relacionados com Tomar.
Dado que o antropónimo Iria, ou Irene, deriva do grego Eirené, não se pretenderá, ao
reporta-lo a Tomar, aludir a contactos com Bizâncio ou com o Oriente, se se considerar a
hipótese de o nome da santa ser uma simples cristianização de Oureana, a Fátima
Muçulmana ?
Não é esta a ocasião indicada para analisar
detidamente uma lenda semanticamente tão rica quanto esta, contudo será conveniente
salientar alguns aspectos cuja simples enumeração é capaz de permitir vislumbrar alguns
dos sentidos em que é legítimo encará-la:
a) A palavra grega Eirene
significa Paz, tal como o termo Jerusalém, conceito simbolizado pelo ramo de oliveira
(Santa Maria do Olival), de cujo fruto se obtém a Luz (física porque alumia e espiritual
porque unge), e pela pomba do Espírito Santo (Charis, a graça ou dom divino);
b) Iria é filha dos nobres Hermígio e Eugenia,
por outras palavras, de Hermes e da Filha do Génio ou Espírito do lugar (de nobre raça,
de alta estirpe ou bem-nascida, Gea ou Deméter, a deusa-mãe), e sobrinha de uma Casta e
de uma Júlia (do grego linda);
c) Iria é monja beneditina alusão directa
ao parentesco entre os monges de S. Bento (olivetanos, cujo cenóbio originou Santa Maria
do Olival), ao culto das estrelas, de Mitra e à demanda do Graal de uma comunidade
chefiada pelo abade Célio (Celeste, mas também o que cobre ou oculta), homónimo do rei
de Elêusis, que ali recebeu Deméter (Ceres), e denominação análoga á dos sacerdotes,
Selli, que, em Dodona, no templo do famoso Oráculo de Zeus, interpretavam os desígnios
deste pelo rumorejar dos carvalhos sagrados;
d) Iria é decapitada (apunhalada, segundo outra
versão) por Banão, nome originado pela desordem das silabas de Nabão (palavra cuja
raiz, nab ou nav, significa tradição, e, por conseguinte, adequado ao destruidor da
ordem tradicional encarnada pela mártir.
Consta ainda que em redor da Igreja de Santa Maria
do Olival existiam antigamente muitas casas em cujas pardieiras das portas se via um boi
gravado em alto-relevo, como aquele que, encontrado durante a abertura da estrada ligando
Santa Iria a Santa Maria do Olival, foi colocado no cunhal do pego.
Qual o significado dessa peça
aparentemente paleocristã ? Que relação poderá ter com o antigo ditado tomarense: Pela
Santa Eireia, toma os bois e semeia ? E com a configuração do castelo de Gualdim Pais,
que evoca a constelação do Boieiro (Bootes) ?
Tudo isto dá, efectivamente,
muito que pensar.
Outras circunstâncias notáveis poderiam ser
trazidas à colação, todavia convém, antes de tudo o mais, recordar algumas
particulares minúcias relacionadas com a doação do Castelo de Cera à Ordem do Templo
por D. Afonso Henriques para demonstrar documentalmente que aquela designação só ao
Castelo de Tomar convém.
Note-se que se usa a grafia Cera
em vez de Ceras, preferida, a revelia da evidência documental, pela maior parte dos
autores.
Além da já apontada (que
não é a menor), uma soma de outras razões assiste à opção, as quais será de toda a
conveniência enumerar.
A Gilberto de Hastings,
bispo de Lisboa, pertenciam, conforme uma composição de 1147, Lisboa, Sintra, Leiria e
Scalaphio e, a sul do Tejo, Alcácer, Palmela e a região de Almada. Santarém constituía
um isento, ou nullius diocesis, a favor do Templo, ficando, portanto, excluído da diocese
de Lisboa.
O prelado inglês decidiu
passar a reivindicar a sua jurisdição sobre esse eclesiástico, cedido por Afonso
Henriques aos Templários para os recompensar pelo auxílio que haviam prestado quando da
expugnação da praça. Alegava o bispo de Lisboa que, face ao direito canónico, a
competência do apenas abrangia a doação de bens temporais, nunca a dos espirituais.
A disputa prolongar-se-ia
durante anos, até que, por mútuo acordo, celebrado em 1159, o bispo e o Templo
concordaram trocar Santarém (com excepção da igreja de Santiago, sita no arrabalde, a
qual permaneceria no posso no Templo) pelo Castelo de Cera, decerto, como sublinha frei
Bernardo da Costa, "coisa estimável, grande e de consequência pois o Rei o deu como
não só o equivalente de todos os Templários cederam ao Bispo de Lisboa e deixaram em
Santarém (...), mas que também pela mesma era a doação prémio dos grandes serviços
recebidos dos Templários.
Em 2 ou 3 diplomas
produzidos relativos a tal escambo, as estremas do território vêm descritas de forma
diferentemente, facto que nunca suscitou qualquer reparo dos investigadores.
No documento de doação do temporal de Cera (por
parte de Afonso Henriques), os limites são estipulados a partir do Zêzere, mais
precisamente a partir do porto de Kaiis (junto da foz do Codes), pelo meio da estrada, ao
Mosteiro da Murta (ruínas do Mosteiro de S. Domingos, entre o actual rego da Murta e a
serra de S. Saturnino), continuando pelo ribeiro da Murta abaixo, pela Fraxineta (ribeiro
formado pela junção das ribeiras da Murta e daquela que vem das Feteiras, desaguando a
cerca de 3 km a sul da Freixianda), até ao Porto de Tomar, que é na estrada de Coimbra
que vai a Santarém. Prosseguia depois pelo meio da estrada nos cimos da margem direita da
ribeira da Beselga até ao Tomar (Nabão) e depois por este rio abaixo até ao Zêzere e
logo por este rio acima até ao porto de Kaiis. Por sua vez, a estrema do isento doado por
D. Gilberto iniciava-se numa localidade denominada Porto de Tomar e situada na margem
esquerda do rio Tomar, junto à actual povoação de Formigais. Seguia depois pela estrada
que desde Coimbra se dirigia para Santarém, atravessando no porto de Ouréns (a ribeira
de Ceiça) junto à actual povoação homónima e daí continuava pela mesma estrada até
a sumidade da Beselga (montes do Furadouro), sita entre a Beselga de Cima e Moreiras
Grandes. Depois, seguia pela margem direita da ribeira da Beselga até ao rio Tomar e dai
pelo rio acima até ao Porto de Tomar, de onde partia.
Portanto, o Castelo de Gera, conforme consta da
doação do temporal, abrangia o território situado em ambas as margens do rio Tomar,
afluente do Zêzere e actual Nabão. Para nascente, estendia-se até ao Zêzere e, para
poente, até à margem direita da ribeira da Beselga, que desagua no Nabão. Porém, a
isenção que o bispo D. Gilberto fez, pela composição de 1159, não abrangia a margem
esquerda do rio Tomar, onde se localiza a povoação de Ceras, junto da ribeira homónima
e da aldeia dos Calvinos, a cerca de l5 km a E NE de Tomar, mas apenas a parte
confinada à margem direita, aquela onde se situa a colina do Castelo e que no documento
de doação é apresentada como o dito termo de Cera.
Sendo assim, como se explica que a Igreja de Santa
Maria do Olival, também situada na margem esquerda do Nabão, se tenha tornado a bailia
da Ordem do Templo ?
Seria indispensável uma bula, a
justis petentium desideriis; dada por Adriano IV (12 de Junho de 1159) e confirmada por
Alexandre III (27 de Junho de 1168), para estender o isento à margem esquerda,
determinando que todas as igrejas edificadas na terra de Cera dependessem directamente de
Roma.
Que concluir do exposto?
Sendo assim, a história
que apresenta os Templários a construir uma fortaleza em Ceras e a abandona-la logo a
seguir pela de Tomar não passa de uma fabula, de resto comprovável pela ausência de
quaisquer vestígios tanto naquela povoação como nos seus arredores.
Em 1159, o Castelo de Cera decerto necessitava de
restauro, que Gualdim Pais terá promovido, introduzindo-lhe alterações na traça, as
quais contribuiriam para a definição do perímetro actual. A 1 de Marco de 1160,
refundá-lo-ia, conferindo-lhe uma estrutura arquitectónica evocativa da constelação de
Bootes, o Boieiro, e atribuindo-lhe o "nomine Thomar", conforme lápide
constante da Torre de Menagem. A cidade gerada nos séculos vindouros, obedecendo ao
modelo hierosolimitano e a uma geometria depuradíssima, deixaria subentendidas as
reminiscências pagas de Sellium e do paleocristianismo bizantino, decorrentes das três
hipóstases adoptadas pela práxis construtiva tradicional, cujo formulário os collegia
fabrorum latinos sistematizaram no Ocidente para usufruto dos gromatici de todos os
tempos, a saber: os quatro Horizontes, as duas Vias e os três Recintos. A propósito
delas, escrevia Clemente de Alexandria: De Deus, Coração do Universo, partem as
extensões indefinidas que se dirigem, uma para cima, outra para baixo, uma para a frente
e outra para trás. Dirigindo o seu olhar para cada uma dessas seis direcções, cria o
mundo. Em Deus se contem as seis fases do tempo e é dele que elas recebem a sua extensão
indefinida. Nisso reside o segredo do número sete.
Tais formulas cosmogónicas emergem de um âmbito
semântico especifico:
I) Os quatro Horizontes: a
sua figura canónica é a cruz, Esta representa, entre outras coisas, os pontos cardeais,
os quatro domicílios do Sol no decurso dos seus ciclos quotidiano c anual (quatro
estações e, por extensão, os 12 signos zodiacais). Exprime simbolicamente a dialéctica
Dia-Noite ou Luz-Trevas, por intermédio da dinâmica circular que insere o factor Tempo
(Cardo maximus, braço vertical ou dos solstícios) no factor Espaço (Decumanus maximus;
braço horizontal ou dos equinócios);
2) As duas Vias: têm correspondência com as
portas solsticiais, sendo representadas por Jano, o deus bifronte, porteiro celeste,
detentor (como S. Pedro) das chaves dourada e prateada dos Grandes e Pequenos Mistérios,
da Porta dos Deuses (Janua Coeli = Capricórnio) e da Porta dos Homens (Janua Inferni =
Caranguejo), respectivamente. O Cardo maximus resume-as: segundo Porfírio, o Câncer é
favorável à descida e o Capricórnio à subida; 
3) Os três Recintos: a
mundividência suposta nesta tripartição assenta, segundo Georges Dumezil, em três
energias ou ordens, a saber: a soberania, regida pelo céu e representada pelo Templo
(oratores, ou clero); a fecundidade, que radica no mundo subterrâneo e se materializa no
celeiro (laboratores, ou povo); a força, que age no mundo terrestre e tem sede no
palácio (bellatores, ou nobreza). Nesta trifuncionalidade (patenteada pelos três degraus
do pelourinho) se baseia a organização social medieval, de acordo com a consabida tese
de Georges Duby.
Resta exemplificar com a aplicação de todos os
aludidos preceitos ao território tomarense.
Gualdim Pais fez jus à devoção templária pelo
Baptista, transformando a Igreja de S. João Precursor [1], paleocristã, na geratriz da
urbe tomarense. Tomando-a como centro, traçou uma circunferência, a forma divina (logo
perfeita) por excelência. Com ela pretendia a Milícia do Templo, por certo, figurar uma
nova Jerusalém, duplicada da Cidade Santa e solo para renovada teofania.
Calculou o raio (380 m) de molde que a
circunferência encontrasse o local assinalado pela tradição como o do martírio de
Santa Iria e também aquele onde edificou a replica da Cúpula do Rochedo.
Terá concluído a
topografia do território deixando assinalados nele os marcos-chave da construção, suas
coordenadas e respectivas fungoes, como se depreende das Inquirições de D. Dinis. As
condicionantes
impostas por esse autentico plano director seriam escrupulosamente seguidas até ao
século XVII, se não mesmo até Oitocentos.
S. Gregório e a Capela de
Santa Bárbara, outrora situada nos actuais terrenos da FAI (século XVI), S. Francisco e
ainda o Padrão Filipino da Várzea Grande (século XVll) haviam ainda de ser dispostos
sobre a circunferência.
A intencionalidade da distribuição espacial das
edificações notáveis da cidade durante um tão lato lapso temporal não oferece
duvidas, até porque se constata pelos traçados que é possível obter um total de 52
triângulos isósceles, número que iguala o cômputo das semanas durante um ano,
consabida metáfora do tempo integral e integrado, forma típica de remissão para a
sacralidade dos lugares Santos da Terra.
O Castelo de Tomar
como
modelador da paisagem
A sua planta evoca a constelação do Boieiro
(Bootes), correspondendo as estrelas Arcturus à Alcáçova e Haris (sentinela do Norte)
à Charola. Estruturalmente, apresenta as seguintes particularidades:
O prolongamento da união do
centro da Charola com alguns dos vértices do octógono alcança pontos notáveis da
muralha (Torre da Condessa, Porta do Sangue, Pórtico Filipino gerando dois hexágonos
regulares, cujos lados (28 m) prolongados definem, por si sós ou como resultado do
encontro de linhas perpendiculares, a orientação e pontos de quebra de diversos panos da
muralha. Com centro na Charola, unindo as Torres da Gondessa e de D. Catarina, a
bissectriz do angulo obtido determina a Porta do Sangue. Com centro na Charola, unindo A
Torre da Condessa e ao cubelo nordeste, a bissectriz (72 graus), do angulo obtido (144
graus) define o eixo da Torre de D. Gatarina. 
Os eixos dos vãos das
Portas do Sol e de Santiago são perpendiculares entre si.
Os panos da muralha sul,
compreendidos entre os 3º e 4º cubelos a partir da Torre de D. Catarina e desde o
ângulo a poente da Porta do Sangue até à Torre da Condessa, acham-se alinhados.
O prolongamento da
direcção do pano da muralha que contem a Porta do Sangue alcança o cubelo da Alcáçova
com forma de ponta de seta (o qual aponta o eixo da Igreja de S. João).
Têm a mesma dimensão (56 m) as
distâncias entre:
1) A Torre da Condessa e o torreão que defende a
nascente a Porta do Sangue,
2) Esse ponto e aquele onde a fachada sul dos
Paços do Infante inflecte;
3) Esse ponto e o centro da
Charola. 
A Porta do Sol abre-se no prolongamento da
Corredora.
O eixo da Porta do Sol determina
a orientação inicial do Aqueduto dos Pegões. No prolongamento do eixo da Porta do
Sangue ergue-se a Igreja de S. Francisco.
A linha gerada pela união do centro da Charola com
o eixo da Porta do Sol encontra a Igreja da Misericórdia (anterior Hospital da Graça).
O prolongamento para
nascente do eixo da muralha sul atinge a Sinagoga. O torreão a nascente da Alcáçova,
(que evoca a ponta de uma seta) aponta o eixo da Igreja de S. João.
A união da torre da Condessa com a Igreja de Santa
Maria do Olival contem a Igreja da Misericórdia. Com centro na Charola, a linha que une a
Igreja de Santa Iria inclui o 1º torreão a poente da Alcáçova (na muralha norte).
Com centro na Charola, unindo ao Pórtico Filipino,
encontra-se a Capela de S. Gregório.
Com centro na Charola,
unindo as Igrejas de S. João, S. Gregório e S. Francisco, obtém-se dois triângulos
isósceles.
Com centro na Charola, unindo as Igrejas de Santa
Iria e S. Gregório, obtém-se um triângulo isósceles cuja mediana, perpendicular à
base do polígono) alinha as Igrejas de Nossa Senhora da Piedade, S. Gregório, S. João,
Misericórdia e S. Sebastião (demolida). Com centro na Charola, unindo ao 4º cubelo da
muralha sul, contado desde a Torre de D. Catarina, encontra-se a Capela de S. Lourenço
[situada na entrada sul de Tomar.
No ponto de intersecção com o
alinhamento produzido pela mediana do triângulo formado pela união da Charola, S.
Gregório e Santa Iria, encontrava-se (porque foi demolida) a Capela de S. Sebastião
(Várzea Grande).
Com centro na Charola,
unindo ao cubelo nordeste, (revestido em 1690), alcança-se o pelourinho colocado na
Várzea Pequena em 1940 (apenas coincidência ou a comissão ainda conhecia a geometria
fundante da cidade?).
Com centro em S. João
formam-se, entre os seis pontos dispostos sobre a circunferência, 15 configurações
triangulares isósceles.
A Igreja de S. João e os seis pontos sobre a
circunferência formam com os restantes edifícios religiosos no
interior do circulo (Igrejas de Santa
Maria do Castelo, Senhora da Conceição, Misericórdia e a Sinagoga, depois da expulsão
dos judeus dedicada a S. Bartolomeu) 13 configurações triangulares isósceles.
A intencionalidade da
distribuição das edificações consideradas torna significativas algumas constatações
resultantes dos traçados, a saber: S. Francisco e o Padrão Filipino não constituem
vértices superioras de nenhum triângulo;
D. Catarina e os três cubelos a
poente dela da origem a 3 ângulos de 4 graus. Por sua vez, as Igrejas de Santa Maria do
Olival e da Senhora da Piedade, com o escadório e altar, e as capelas demolidas de S.
Lourenço, S, Miguel e S. Sebastião (cujas localizações, reencontradas pelos traçados,
conviria assinalar no território), situadas no exterior da circunferência, são
atraídas para ela por uma complexa cadeia de triângulos isósceles, construídos com
todos os edifícios mais o ponto de confluência das artérias que correm no sentido N-S
(actuais Ruas do Pé da Costa, Dr. Sousa, Infantaria 15, Silva Magalhães e dos Moinhos).
A intencionalidade da distribuição das edificações consideradas torna significativas
algumas constatações resultantes dos traçados, a saber: Alguns polígonos possuem
vértices comuns, e outros, um vértice e um ou mais lados;
No ponto de
intersecção dos lados dos triângulos altar / Senhora da Piedade / S. Gregório e S.
Gregório / Senhora da Piedade / Senhora da Conceição convergem os prolongamentos das
ruas que correm no sentido N-S. O prolongamento da mediana do triângulo S. Gregório /
Charola / Santa Iria alinha Senhora da Piedade, S. Gregório, S. João, Misericórdia, S.
Sebastião (demolida). A localização exacta da demolida Capela de S. Sebastião
obtém-se pela intersecção da linha que une a Charola e S. Lourenço com aquela que
alinha os cinco edifícios supracitados;
Ad Majorem
Dei Gloriam
Mas até Fernando Pessoa
dedicou à questão algum do seu tempo, já que subsiste no seu espolio um fragmento
deveras sintomático:
(...) Padre Fulano, tem-me causado pasmo. como
católico, o facto de a sua Ordem (Companhia de Jesus) ter um Quarto Voto, e de esse
Quarto Voto ser o de obediência ao Papa. Parece-me que semelhante voto é totalmente
desnecessário num católico, e até deixa presumir que seria de esperar dele uma falta de
obediência. Calculo por isso que o Voto não seja realmente esse. Diga-me: realmente,
verdadeiramente qual e o Quarto Voto ?)
Invocavam todos, Pessoa,
Garrett e Pombal, a vox populi, segundo a qual, após a morte de Jacques de Molay, 22º grão-mestre do Templo, se reunira em Paris um
consistório onde ficara estabelecido um programa de actuação que consistia no
extermínio das monarquias, destruição do papado, pregação da liberdade e
instauração de uma Republica Universal. Duas congregações aparentemente antagónicas,
para cuja organização os presentes supostamente se haviam comprometido a trabalhar,
seriam as executoras do legado: a Companhia de Jesus e a Maçonaria.
Os Jesuítas nas suas obras
traduziam as palavras Mai-son e Maçon pelas palavras gregas lathomos, lathomia. A
primeira significa propriamente um canteiro de pedra e a segunda um calabouço, uma
prisão ou morada secreta e escandalosa, e por isso chamavam aos Maçõns lathmos para significarem homens
fechados em Lojas [...]. Seria demasiadamente extenso se houvesse de seguir o Capitão
Smith [...] enfim, a historia, a constituição dos Templários é a mesma, ou pelo menos
em tudo semelhante com a da Companhia chamada de Jesus. De maneira que todos aqueles que
pelo estudo da história estão convencidos do poder, cobiça e perfídia dos Templários
igualmente o estão de que os Jesuítas lhes não ficavam atrás e por isso aplaudiram a
sua extinção, mas eles devem saber o que talvez inteiramente ignorem, isto é, que a
Bula de Ganganelli não suprimiu mais do que o exterior da Roupeta e do grande chapéu e o
poderem eles viver juntos e linearmente com estes exteriores e imposição. Isto é o que
faz a Bula daquele Pontífice bem como a de Clemente fez aos Templários, porém a
doutrina, os segredos misteriosos, os sistemas maquiavélicos e os laços da
confraternidade tanto de um como dos outros ficaram apesar das Bulas de extinção,
subsistindo na Sociedade dos Pedreiros Livres. Há Templários e Jesuítas por toda a
parte, nos privados Conselhos dos Soberanos, dentro do Directório, nos Tribunais, nas
Administrações Civis, à frente dos Exércitos de todas as nações, nos Parlamentos
Ingleses, no mesmo Vaticano, no [...], os Governos os reconhecerão um dia [...], mas pode
muito bem ser que já seja tarde.
Convirá, não obstante,
inquirir se não se dará o caso de Fernando Pessoa se referir à Ordem de Cristo, que
vale o mesmo que Ordem Templária de Portugal, pensando na Maçonaria. Em matéria de que
era incontestado especialista, o poeta da Mensagem não se equivocaria. A confirmação
desta convicção acha-se num fragmento do seu espolio (Esp. 5W87), referido a um tal
Nunez, que quis fundar uma Ordem de Cristo dentro da Maçonaria, o que estava, conclui
Fernando Pessoa, de antemão condenado.
Diametralmente oposta a esta
Maçonaria de obediência claramente ateia, e por essa mesma razão de antemão condenada,
uma outra se perfilara em Tomar após a reforma de Frei António de Lisboa, Templária,
Cristã (apesar de anti-romana) e Rosa-Cruz, a dos pastores da Lusitânia Transformada,
constituída por pessoas concretas que mudam de nome conforme trocam de vida ou lhes é
conferido novo estatuto ou grau iniciático pelo maioral (grão-mestre), perante o qual
respondem.
Não será demais recordar que o estilo de vida que
adoptaram não foi invenção sua, porquanto já no Antigo Testamento Abraão e os seus
sucessores seguiam uma vida pastoril e no Salmo XXIII o Bom Pastor conduz as ovelhas pelos
caminhos que levam as fontes da paz e da alegria, impedindo-as de se extraviarem. Com
Cristo, contudo, a metáfora há-de adquirir contornos de biografia: Ele será o pastor e
concomitantemente também o Cordeiro que está no meio do Trono, os apascentará e lhes
servirá de guia para as fontes
das aguas da vida. Frei
Luis de Léon (1528 1591) resume tudo o que respeita o tema, incluindo a tradição
bucolica de helenistas e latinos, no De los Nombres de Cristo, tratando-0 de príncipe dos
pastores e caracterizando a vida destes.
Há-de haver quem diga que não
há como provar materialmente o que se diz...
Recordo que lá diz o
Evangelho que é mais cego o que não quer ver que o cego de nascença ... Com efeito,
não só não é legítimo retirar a Lusitânia Transformada verosimilhança, uma vez que
os cenários nela descritos ainda hoje são reconhecíveis, mas, mais do que isso: se o
movimento Rosa-Cruz, como as fontes disponíveis afirmam e reafirmam, teve origem na
Alemanha durante o século XVII (1610?), como justificar a ocorrência no Convento de
Cristo, já em 1535, dos símbolos que o ramo germânico havia de adoptar só cerca de um
século mais tarde ?
E, derradeira questão, no caso de se descartar a
perenidade da tradição templária em Tomar, a quem aproveitariam as legendas
notoriamente provocantes e obviamente crípticas que acompanham as duas matronas postadas
à entrada (antiga entrada, dirigida a oriente) da Charola de Tomar, aludindo a
degradação dos Mistérios Iniciáticos, antes conferidos no cume da montanha, ora nos
vales, designação que havia de, posteriormente, ser adoptada pela Maçonaria para aludir
às suas lojas?